Os elementos que compõem um acordo de entrega

Onde estes acordos travam na prática, e por que motivo.

Collegium of International Lawyers LP

Escreva-nos
Notificação vermelha da INTERPOL

Um tratado de extradição é um acordo formal entre dois países que define as regras para que um Estado entregue ao outro uma pessoa acusada ou condenada por um crime. É a principal ferramenta da cooperação jurídica internacional. Na prática, este mecanismo impede que criminosos usem fronteiras como escudo para escapar da justiça.

Tratado de Extradição - Acordo internacional, geralmente bilateral, que obriga os Estados signatários a entregarem reciprocamente pessoas que se encontrem nos seus territórios e sejam procuradas para responder a um processo penal ou para cumprir uma pena. A sua aplicação depende do cumprimento de requisitos legais estritos, como a dupla tipicidade.

O que exatamente define um processo de extradição?

Extradição é um ato de cooperação jurídica. Ponto. Nele, um país (o Estado requerido) entrega uma pessoa a outro (o Estado requerente) para que seja julgada ou cumpra a sua pena. Contudo, o procedimento não é automático; ele é rigorosamente guiado por princípios que visam garantir justiça e proteger os direitos humanos.

O Princípio da Dupla Tipicidade

Para que a extradição avance, o ato precisa ser crime nos dois países: no que pede e no que recebe o pedido. Mas não basta. A pena mínima é outro fator decisivo. É comum a exigência de que o crime seja punível com mais de um ano de prisão em ambas as legislações, um limiar presente em acordos importantes, como o Tratado de Extradição entre Argentina e Brasil.

As Etapas do Processo

Um pedido de extradição direcionado ao Brasil segue um fluxo bem definido:

  1. O pedido é formalizado, chegando por via diplomática.
  2. É recebido e triado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, que verifica apenas os requisitos formais. Um documento em falta ou um erro de tradução nesta fase pode atrasar todo o processo em meses.
  3. Se tudo estiver conforme, o caso segue para o Supremo Tribunal Federal (STF), o único órgão com competência para julgar a legalidade do pedido.
  4. O STF analisa se o pedido cumpre as exigências do tratado ou da lei brasileira, mas atenção: o tribunal não julga se a pessoa é culpada ou inocente. A análise é puramente legal.
  5. Com a autorização do STF, a decisão final sobre a entrega da pessoa é um ato político e discricionário do Presidente da República. Ele pode ou não efetivar a entrega.

Limites e Vedações à Extradição

Existem proibições claras. A mais conhecida na legislação brasileira é a vedação à extradição de brasileiro nato, uma garantia da Constituição Federal. Crimes de natureza política ou de opinião também costumam ser uma barreira. Outro limite crucial diz respeito à pena: a extradição é negada se a pessoa puder ser condenada à morte ou a penas cruéis, a menos que o Estado requerente se comprometa formalmente a converter a sanção para a pena máxima permitida no Brasil.

Com quais países o Brasil tem acordo de extradição?

O Brasil possui tratados de extradição ativos com mais de 30 países. Estes acordos, sejam bilaterais ou multilaterais, criam um roteiro previsível para a cooperação. A lista oficial e atualizada desses tratados é mantida pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública.

Qual o status do tratado de extradição entre Brasil e Estados Unidos?

Sim, o acordo existe e é um dos mais relevantes. Foi assinado em 13 de janeiro de 1961 e promulgado no Brasil pelo DECRETO Nº 55.750, de 11 de fevereiro de 1965. Este tratado estabelece a obrigação de entrega mútua para uma lista detalhada de crimes e continua a ser um pilar na cooperação jurídica entre as duas nações.

A Alemanha tem acordo de extradição com o Brasil?

Sim, Brasil e Alemanha têm um tratado de extradição. Celebrado em Bona a 27 de setembro de 1928, é um dos instrumentos de cooperação mais antigos do Brasil que ainda está em pleno vigor. Ele continua a facilitar a entrega de foragidos, sempre com base nos princípios jurídicos que ambos os países partilham.

Portugal tem acordo de extradição com o Brasil?

Com certeza. A cooperação jurídica com Portugal é uma das mais sólidas, em grande parte facilitada pela "Convenção de Extradição entre os Estados Membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP)". Promulgada no Brasil pelo Decreto nº 7.935, de 2013, esta convenção multilateral torna o trâmite entre os países de língua portuguesa muito mais simples e ágil.

E se não houver um tratado específico?

A ausência de um tratado não torna a extradição impossível. Apenas muda as regras do jogo. Nesses cenários, a cooperação pode se apoiar em outro mecanismo legal.

O Princípio da Reciprocidade

Quando falta um acordo formal, a extradição pode ser solicitada com base numa promessa de reciprocidade. O que isso significa? O governo brasileiro pode pedir a entrega de um fugitivo a outro país, garantindo que faria o mesmo numa situação futura semelhante, conforme previsto na Lei de Migração (Lei nº 13.445/2017). A decisão final, no entanto, sempre dependerá da legislação interna do país que recebe o pedido, tornando o resultado menos certo.

Dubai tem acordo de extradição com o Brasil?

Atualmente, não existe um tratado bilateral de extradição entre o Brasil e os Emirados Árabes Unidos (onde fica Dubai). A história, porém, está a mudar. Em 2024, os dois países assinaram acordos de cooperação jurídica mútua em matéria penal e de transferência de pessoas condenadas. Embora ainda não seja um tratado de extradição formal, representa um avanço significativo que pode abrir caminho para futuras entregas com base na reciprocidade.

Quais são os países que não têm tratado de extradição com o Brasil?

Muitos países não possuem um acordo formal com o Brasil. Na lista, encontram-se nações como a Rússia, a Finlândia, o Japão e a maior parte dos países do continente africano e do Médio Oriente. Em todos esses casos, um pedido de extradição fica pendente da promessa de reciprocidade e da boa vontade das autoridades locais, o que torna o processo muito mais incerto e demorado.

Por que um pedido de extradição pode ser negado?

Um pedido de extradição pode ser negado por várias razões, todas ancoradas na Constituição, nas leis brasileiras e nos próprios tratados internacionais.

Razões Constitucionais e Legais

A principal causa de recusa é a nacionalidade. O Art. 5º, LI, da Constituição Federal proíbe taxativamente a extradição de brasileiro nato. Outros motivos comuns incluem:

  • O fato ser considerado um crime de natureza política ou de opinião.
  • A pessoa já ter sido julgada (seja para condenação ou absolvição) no Brasil pelo mesmo ato, em respeito ao princípio ne bis in idem.
  • A prescrição do crime, seja pela lei brasileira ou pela lei do país requerente. Se o prazo para punir se esgotou em qualquer um dos dois países, a extradição não pode ocorrer.

O Caso Cesare Battisti

O famoso caso do cidadão italiano Cesare Battisti é um exemplo perfeito da complexidade do processo. O STF autorizou a sua extradição para a Itália, onde ele havia sido condenado por assassinato. No entanto, num ato de soberania, o então Presidente da República decidiu pela sua permanência no Brasil. Anos depois, essa decisão política foi revertida, e ele foi finalmente entregue, o que demonstra a forte e, por vezes, imprevisível componente política que envolve a extradição.

Ausência de Garantias Processuais

O STF também negará o pedido se o Estado requerente não garantir um julgamento justo ou se houver risco real de que a pessoa seja submetida a tortura, pena de morte ou tratamento degradante. Para crimes puníveis com a morte, o Brasil só prossegue se houver um compromisso formal do outro país de que a pena será comutada para a máxima permitida pela legislação brasileira.

Este artigo é publicado por um portal informativo independente para fins educacionais e não representa nem alega afiliação com qualquer órgão governamental, organização internacional ou autoridade oficial.

Quer que avaliemos a sua situação?

Descreva as circunstâncias — a primeira avaliação é gratuita e confidencial.

Pedir uma avaliação

Perguntas frequentes

A Irlanda tem acordo de Extradição com o Brasil?
Sim, o Brasil e a Irlanda possuem um tratado de extradição. O acordo foi assinado em 1989 e promulgado no Brasil pelo DECRETO Nº 863, de 9 de julho de 1993, durante o governo de Itamar Franco.
O que acontece se uma pessoa procurada tiver dupla nacionalidade, sendo uma delas brasileira?
Se a nacionalidade brasileira for originária (brasileiro nato), a extradição é absolutamente proibida pela Constituição. Se a nacionalidade for adquirida (naturalização), a extradição é possível em duas situações específicas: por crime comum praticado antes da naturalização ou por comprovado envolvimento em tráfico de drogas, a qualquer tempo.
Um tratado de extradição precisa ser aprovado pelo Congresso?
Sim. No Brasil, qualquer tratado internacional assinado pelo Poder Executivo deve ser submetido à aprovação do Congresso Nacional, que o ratifica através de um Decreto Legislativo. Somente após essa aprovação e a posterior promulgação pelo Presidente da República é que o tratado adquire força de lei no país.
Qual a diferença entre extradição, deportação e expulsão?
Extradição é um pedido de um Estado a outro para a entrega de uma pessoa para fins penais. Deportação é a retirada compulsória de um estrangeiro que se encontra em situação migratória irregular. Expulsão é a retirada de um estrangeiro que cometeu uma infração grave (como um crime), impedindo o seu retorno por um determinado período.
Qual o status do tratado de extradição entre Brasil e Estados Unidos?
Sim, o acordo existe e é um dos mais relevantes. Foi assinado em 13 de janeiro de 1961 e promulgado no Brasil pelo DECRETO Nº 55.750, de 11 de fevereiro de 1965. Este tratado estabelece a obrigação de entrega mútua para uma lista detalhada de crimes e continua a ser um pilar na cooperação jurídica entre as duas nações.
A Alemanha tem acordo de extradição com o Brasil?
Sim, Brasil e Alemanha têm um tratado de extradição. Celebrado em Bona a 27 de setembro de 1928, é um dos instrumentos de cooperação mais antigos do Brasil que ainda está em pleno vigor. Ele continua a facilitar a entrega de foragidos, sempre com base nos princípios jurídicos que ambos os países partilham.

Conteúdos relacionados